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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Boy Interrupted



Desde pequena o suicídio exerceu uma atração muito forte sobre mim, talvez tenha sido desencadeada pelo suicídio do meu vizinho de quem eu gostava tanto. Eu já tinha ouvido falar na igreja que os suicidas não herdariam o reino dos céus. Bom, se eles não iam para o céu, o inferno eram onde eles estavam, conclui. Tudo muito simplório e maniqueísta, mas eu criança não lidava muito bem com aquilo. Não parecia certo e me incomodava muito. Todos os dias passava por sua casa e sua ausência não me doía tanto quanto o medo dele estar no inferno.
Cresci, e esse medo do inferno não me incomoda mais, muito menos acredito que os suicidas estão ardendo num lago de fogo e enxofre. O que me incomoda são os pré-julgamentos que as pessoas fazem dos suicidas, chamando-os de covardes, fracos e egoístas. Mas ao contrário do que muita gente pensa é necessário coragem para viver e muito mais coragem para se matar. Então porque se matar? A dor torna a existência impossível.
Boy Interrupted é um documentário da HBO de 2008, exibido no Sundance Festival Film 2009 que tem como carro-chefe o suicídio de Evan, um garoto de 15 anos que sofria de transtorno bipolar depressivo. Com muita sensibilidade, o documentário mostra toda a trajetória do menino Kevin, desde bebê até dias antes de seu suicídio, por meio de recortes de gravações que os seus pais cineastas costumavam fazer da família.
Ao assistir o documentário não me senti uma mera expectadora, eu fazia parte da família. O garoto aparece em conversas, brincadeiras, ri, grava sua família, bem como aparece em seu estado de completa ausência, estado que os pais denominavam “fuga”. O olhar vazio e impenetrável de uma criança é uma imagem aterrorizadora que fica gravada na mente, a confissão dos pais sobre impotência de conseguir alcançá-lo nesses momentos é um tanto desoladora. Kevin era apenas uma criança de sete anos de idade, fase em que muitas estão apenas sendo crianças como a nossa visão romantizada espera, enquanto ele já escrevia poemas profundos, compunha músicas e escutava Dylan, nirvana e Neil Young.  
          O documentário não mostra apenas a trajetória do garoto, mas todo o esforço da família para salvá-lo, bem como o luto após a sua morte e o sentimento de fracasso que assolou a todos. Não acredito que o esforço de sua família tenha sido inútil, mas o suficiente para salvá-lo por alguns anos. 
            Quando o documentário termina a dúvida/desabafo da mãe que é a diretora do filme passa a ser a nossa:  No que pensava Kevin quando colocou o pé na janela para pular? Será que sabia que sua doença era mais forte a ponto de não conseguir vencê-la? Bom, a carta de despedida de Kevin é nos dada na integra com as suas razões e suas perspectivas, exposta na tela preta do computador. Algo que marca muito foi ele ter escrito que nunca teve amigos e o depoimento emocionado de um de seus amigos dizendo que não acreditava nisso, que sabia que ele não queria dizer isso de verdade.
Na carta não vemos apenas Kevin, vemos também a nós mesmos com todas nossas fragilidades expostas.
Descrita como uma criança “sensível”, “carinhosa” e de “alma sombria" por sua mãe, “a criança mais aterrorizadora que já vi” por seu psiquiatra, “amada por todos” por seus amigos, o documentário mostra que há uma linha tênue entre o que entendemos sanidade e loucura. Um documentário que deveria ser assistido por todos.


Assista online:

 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Aokigahara

(Obra de Tato Akhalkatsishvili, https://artdoxa.com/tato/large?page=1)
No final das contas, todo mundo morre sozinho. E nesse derradeiro ato não há nada que alguém possa fazer.
Em vida, a solidão contínua... a sociedade... a exigência de ser a cada momento uma coisa que não se é... a sociedade... o desejo de ser o que lhe é incompatível... a sociedade... uma rede que aprisiona, que envolve em um emaranhado de bytes alheios... e envenena... e digere e consome o que ainda resta de si mesmo... 
Não... morrer sozinho é o de menos... viver sozinho é que mata. A mais completa ausência de possibilidade de compreensão. O esvaziamento da comunicação. Estado Vegetativo. 
Não como os vegetais. As plantas vivem perfeitamente, entendem os nutrientes que absorvem da terra, entendem os raio solares incidindo em suas folhas, entendem as estações do ano, entendem o ambiente que as rodeiam. Nasceram para isso e viveram para isso. São felizes porque não precisam pensar que são plantas.
Nunca houve tanta comunicação e interação entre as pessoas. E quanto maior a proximidade, mais catastróficas serão as consequências. Manuais de suicídio se tornarão best-sellers? Acho que já o são, disponibilizados na rede para quem quiser ler. Não precisam ser vendidos em livrarias.
Uma bola  de bilhar jamais servirá como um dado. Mesmo assim, a sorte é lançada, sem qualquer resultado. O ambiente esmaga e empurra e bate. A bola de bilhar não consegue chegar a um ponto de estabilidade e se choca violentamente com o que estiver ao seu redor e se quebra. Jogo perdido, game over para você.
Enquanto isso, as plantas são as plantas.
A exuberância de uma floresta silenciosa, fechada e com um verde intenso não deveria ser um local de suicídio. E sim um local de paz,  que conduzisse o espírito a um estado de felicidade nunca alcançado. Mas, para morrer também é necessário estar preparado, talvez esse seja o Éden para a morte.
Uma pessoa sem potencial. Em um primeiro entendimento, uma pessoa que não conseguirá nada da vida e não será nada, será um pária, alguém para ser esquecido, um insignificante. 
Mas, o potencial exigido para conseguir uma coisa que não vem da vontade, ser uma coisa que negue a si próprio, ser reconhecido por fazer algo que não tem mérito algum, ser lembrado  por quem nunca o conheceu de fato... isso é ter potencial? É esse potencial que está levando tantas pessoas a cometerem o suicídio?
Enquanto isso, as plantas são as plantas. E são felizes.