quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu coração repousa na cidade do sol,
ou apenas está preso em seus próprios caminhos?
confinado entre olhares e pedidos dessas ruas.
No mesmo passo, acena mais um sentido,
sinto disso em profundidade, até seus confins
Mas de tudo o que almejo é voar
forte, recostando no mar, de volta em voo alto,
qual água não será minha liberdade repousada de cima?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Se hoje passo e te vejo sentada sozinha, desde que me entendo por gente que você era assim: senhorinha sentada na calçada justamente à tardinha com seu marido, agora falecido. Mas foram longos anos, eu andava pela aquela casa grande demais pra mim e temia que os espíritos viessem falar comigo quando me sentava sozinha no balanço.  E você era minha vizinha. Minha avó sempre conversava contigo na calçada enquanto eu brincava na rua. Eu adorava sua casa, tinha apenas lá meus cinco anos e não entendia porque você não tinha filhos, sua casa parecia de boneca, estreita.  Ainda lembro-me da sensação do impecável, daquele cheiro de lustra-móveis e uma leve lavanda. Meus avós se foram, seu marido se foi, mas você permanece na sua casa de boneca e sozinha. Sem gatos, nem cachorros, nem filhos, apenas você e a sua velha mania de deixar a janta pronta antes do anoitecer. Talvez você se mude dali. Talvez esse tempo não chegue. O tempo agora parece tudo pra você. A hora da janta, as novelas, indo pra cama cedo. Sua vida naquela casa que nunca mudou, naqueles móveis que permanecem os mesmos, encerados. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Já não posso sonhar com você, mesmo entre os pesadelos não te encontro. No entanto, às vezes, acordo de madrugada e me lembro de alguma coisa que, talvez, você e só você entenderia. Como o fato de meu retorno a ler José Lins do Rego, não, eu não quero começar Guerra e Paz agora, eu quero ler Usina. Como o fato de eu me encontrar à noite indo assistir àquelas novelas nostálgicas e terríveis da globo. Você entenderia. E entenderia também porque a abertura da novela me causa uma coisa boa. Você entenderia o fato de eu estar em dois lugares ao mesmo tempo, como que transbordando e desesperada por uma salvação teórica (?) em que tudo, sem dúvidas, é árduo. Entenderia também que eu não acredito em salvação alguma. Tudo me fascina e não só os gestos heróicos ou os grandes discursos, mas a luta árdua ou uma não finalidade. Você entenderia o fato de eu estar perdida. E essa minha vontade de me dar a tudo. E essa minha necessidade de não ficar parada. Entenderia meu mentor e vocês se dariam bem. E ele me disse hoje que por dentro estou efervescente, e você entenderia isso também. E você entenderia as sacadas idiotas, sorriria e aquele seria nosso lugar. E você jamais me entediaria porque você falaria coisas estúpidas sempre sobre qualquer pessoa em qualquer lugar. Você entenderia àquelas assembleias e seria inevitável não amar àquilo e não amar como as pessoas falam e como elas são, e você faria piada, certeza, e também se emocionaria. Você entenderia o quanto há coisas que me machucam, mas o quanto estou indo melhor.  

terça-feira, 12 de maio de 2015

Roleta Russa

Você é minha ferida não cicatrizada
gangrena no peito que se espalha
Meu eterno grito de lamento
Porque o fim de todas as coisas
é a tristeza? - sim, de todas as coisas!
Oh, não chore minha pobre alma desgraçada.
Mortos não choram, ouviu?
Mas há em você um coração que pulsa
Pulsa para o quê? - Para nada!
Como dar vida a uma pedra.
Há dignidade no poder da escolha
-Vida ou morte? Mas lhe foi roubada.
Ninguém pode servir a dois senhores, ouviu?
Pois há de amar a um e odiar ao outro
E quem sabe odiar os dois.
Pra quem você acenderia velas?
Pra quem você faria as suas preces?
Tem sorte quem dispara o gatilho e morre
Rejeitada  pela vida e pela morte
Trancafiada num escafandro
Você só deseja que todas as vozes se calem.                                      

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Viúva-negra

 
Preso em sua teia de cabelos
Enrolado em fios dispersos
Sua ampulheta escorre areia
Vermelha

Me aproximo para tentar a cópula
Mas você me mata
Esporadicamente

Viúva-negra de sangue frio
Tenho vontade de fugir
Esporadicamente

A ampulheta gira
Tudo recomeça

Não sei se sou eu que
Morro por você
Ou se é você que
Mata por prazer

Esporadicamente
Parece ser uma coisa
Ou outra

Quase sempre
É sangue desperdiçado

A ampulheta gira
Há cada vez menos
Areia