Desde
pequena o suicídio exerceu uma atração muito forte sobre mim, talvez tenha sido
desencadeada pelo suicídio do meu vizinho de quem eu gostava tanto. Eu já tinha
ouvido falar na igreja que os suicidas não herdariam o reino dos céus. Bom, se
eles não iam para o céu, o inferno eram onde eles estavam, conclui. Tudo muito
simplório e maniqueísta, mas eu criança não lidava muito bem com aquilo. Não parecia
certo e me incomodava muito. Todos os dias passava por sua casa e sua ausência não
me doía tanto quanto o medo dele estar no inferno.
Cresci,
e esse medo do inferno não me incomoda mais, muito menos acredito que os
suicidas estão ardendo num lago de fogo e enxofre. O que me incomoda são os
pré-julgamentos que as pessoas fazem dos suicidas, chamando-os de covardes,
fracos e egoístas. Mas ao contrário do que muita gente pensa é necessário coragem
para viver e muito mais coragem para se matar. Então porque se matar? A dor
torna a existência impossível.
Boy
Interrupted é um documentário da HBO de 2008,
exibido no Sundance Festival Film 2009 que tem como carro-chefe o suicídio de
Evan, um garoto de 15 anos que sofria de transtorno bipolar depressivo. Com
muita sensibilidade, o documentário mostra toda a trajetória do menino Kevin,
desde bebê até dias antes de seu suicídio, por meio de recortes de
gravações que os seus pais cineastas costumavam fazer da família.
Ao
assistir o documentário não me senti uma mera expectadora, eu fazia parte da família.
O garoto aparece em conversas, brincadeiras, ri, grava sua família, bem como
aparece em seu estado de completa ausência, estado que os pais denominavam “fuga”.
O olhar vazio e impenetrável de uma criança é uma imagem aterrorizadora que
fica gravada na mente, a confissão dos pais sobre impotência de conseguir alcançá-lo
nesses momentos é um tanto desoladora. Kevin era apenas uma criança de sete anos
de idade, fase em que muitas estão apenas sendo crianças como a nossa visão
romantizada espera, enquanto ele já escrevia poemas profundos, compunha músicas
e escutava Dylan, nirvana e Neil Young.
O documentário não mostra apenas a
trajetória do garoto, mas todo o esforço da família para salvá-lo, bem como o
luto após a sua morte e o sentimento de fracasso que assolou a todos. Não
acredito que o esforço de sua família tenha sido inútil, mas o suficiente para
salvá-lo por alguns anos.
Quando
o documentário termina a dúvida/desabafo da mãe que é a diretora do filme passa
a ser a nossa: No que pensava Kevin
quando colocou o pé na janela para pular? Será que sabia que sua doença era
mais forte a ponto de não conseguir vencê-la? Bom, a carta de despedida de
Kevin é nos dada na integra com as suas razões e suas perspectivas, exposta na
tela preta do computador. Algo que marca muito foi ele ter escrito que
nunca teve amigos e o depoimento emocionado de um de seus amigos dizendo que
não acreditava nisso, que sabia que ele não queria dizer isso de verdade.
Na
carta não vemos apenas Kevin, vemos também a nós mesmos com todas nossas
fragilidades expostas.
Descrita como uma criança “sensível”, “carinhosa” e de “alma
sombria" por sua mãe, “a criança mais aterrorizadora que já vi” por seu
psiquiatra, “amada por todos” por seus amigos, o documentário mostra que há uma
linha tênue entre o que entendemos sanidade e loucura. Um documentário que
deveria ser assistido por todos.