Se hoje passo e te vejo sentada sozinha,
desde que me entendo por gente que você era assim: senhorinha sentada na
calçada justamente à tardinha com seu marido, agora falecido. Mas foram
longos anos, eu andava pela aquela casa grande demais pra mim e temia que os
espíritos viessem falar comigo quando me sentava sozinha no balanço. E
você era minha vizinha. Minha avó sempre conversava contigo na calçada enquanto
eu brincava na rua. Eu adorava sua casa, tinha apenas lá meus cinco anos e não
entendia porque você não tinha filhos, sua casa parecia de boneca,
estreita. Ainda lembro-me da sensação do impecável, daquele cheiro de
lustra-móveis e uma leve lavanda. Meus avós se foram, seu marido se foi, mas
você permanece na sua casa de boneca e sozinha. Sem gatos, nem cachorros, nem
filhos, apenas você e a sua velha mania de deixar a janta pronta antes do
anoitecer. Talvez você se mude dali. Talvez esse tempo não chegue. O tempo
agora parece tudo pra você. A hora da janta, as novelas, indo pra cama cedo.
Sua vida naquela casa que nunca mudou, naqueles móveis que permanecem os
mesmos, encerados.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Já não posso sonhar com
você, mesmo entre os pesadelos não te encontro. No entanto, às vezes, acordo de
madrugada e me lembro de alguma coisa que, talvez, você e só você entenderia. Como
o fato de meu retorno a ler José Lins do Rego, não, eu não quero começar Guerra
e Paz agora, eu quero ler Usina. Como o fato de eu me encontrar à noite indo
assistir àquelas novelas nostálgicas e terríveis da globo. Você entenderia. E
entenderia também porque a abertura da novela me causa uma coisa boa. Você
entenderia o fato de eu estar em dois lugares ao mesmo tempo, como que
transbordando e desesperada por uma salvação teórica (?) em que tudo, sem
dúvidas, é árduo. Entenderia também que eu não acredito em salvação alguma. Tudo
me fascina e não só os gestos heróicos ou os grandes discursos, mas a luta árdua
ou uma não finalidade. Você entenderia o fato de eu estar perdida. E essa minha
vontade de me dar a tudo. E essa minha necessidade de não ficar parada.
Entenderia meu mentor e vocês se dariam bem. E ele me disse hoje que por dentro
estou efervescente, e você entenderia isso também. E você entenderia as sacadas
idiotas, sorriria e aquele seria nosso lugar. E você jamais me entediaria
porque você falaria coisas estúpidas sempre sobre qualquer pessoa em qualquer
lugar. Você entenderia àquelas assembleias e seria inevitável não amar àquilo e
não amar como as pessoas falam e como elas são, e você faria piada, certeza, e
também se emocionaria. Você entenderia o quanto há coisas que me machucam, mas
o quanto estou indo melhor.
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