sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Se hoje passo e te vejo sentada sozinha, desde que me entendo por gente que você era assim: senhorinha sentada na calçada justamente à tardinha com seu marido, agora falecido. Mas foram longos anos, eu andava pela aquela casa grande demais pra mim e temia que os espíritos viessem falar comigo quando me sentava sozinha no balanço.  E você era minha vizinha. Minha avó sempre conversava contigo na calçada enquanto eu brincava na rua. Eu adorava sua casa, tinha apenas lá meus cinco anos e não entendia porque você não tinha filhos, sua casa parecia de boneca, estreita.  Ainda lembro-me da sensação do impecável, daquele cheiro de lustra-móveis e uma leve lavanda. Meus avós se foram, seu marido se foi, mas você permanece na sua casa de boneca e sozinha. Sem gatos, nem cachorros, nem filhos, apenas você e a sua velha mania de deixar a janta pronta antes do anoitecer. Talvez você se mude dali. Talvez esse tempo não chegue. O tempo agora parece tudo pra você. A hora da janta, as novelas, indo pra cama cedo. Sua vida naquela casa que nunca mudou, naqueles móveis que permanecem os mesmos, encerados. 

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