Se hoje passo e te vejo sentada sozinha,
desde que me entendo por gente que você era assim: senhorinha sentada na
calçada justamente à tardinha com seu marido, agora falecido. Mas foram
longos anos, eu andava pela aquela casa grande demais pra mim e temia que os
espíritos viessem falar comigo quando me sentava sozinha no balanço. E
você era minha vizinha. Minha avó sempre conversava contigo na calçada enquanto
eu brincava na rua. Eu adorava sua casa, tinha apenas lá meus cinco anos e não
entendia porque você não tinha filhos, sua casa parecia de boneca,
estreita. Ainda lembro-me da sensação do impecável, daquele cheiro de
lustra-móveis e uma leve lavanda. Meus avós se foram, seu marido se foi, mas
você permanece na sua casa de boneca e sozinha. Sem gatos, nem cachorros, nem
filhos, apenas você e a sua velha mania de deixar a janta pronta antes do
anoitecer. Talvez você se mude dali. Talvez esse tempo não chegue. O tempo
agora parece tudo pra você. A hora da janta, as novelas, indo pra cama cedo.
Sua vida naquela casa que nunca mudou, naqueles móveis que permanecem os
mesmos, encerados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário